Como ser um facilitador?

Olá galera,

Neste segundo post abordarei como ser um facilitador. Ainda apoiado ao modelo Golden Cicle de Simon Sinek  no primeiro post começamos pelo por que, agora chegamos no como, em ambos trabalhamos no sistema límbico, traduzindo a área do cérebro responsável por controlar as emoções e as funções de aprendizado e da memória. Nesses dois posts iniciais acredito que fortaleceram o caminho do facilitador e também a segurança em estar atuando com facilitação.

Se definir como facilitador é algo bem complexo pois temos várias áreas de atuação como: negócios, treinamentos, educação, gestão de conflitos, social, comunidades ou grupos[1]. Dentre estas áreas também existem estratégias que podem ser tomadas além das comumente utilizadas por um facilitador como controle do tempo, foco na agenda, clareza na troca de informações entre outras.

Acredito que o processo de construção de um facilitador vem com o tempo e a experiência, e principalmente dos feedbacks das facilitações (este é essencial). Outro fator importante em como se tornar um facilitador na minha opinião é estar sempre buscando o conhecimento e o “fora da caixa” e para isso levanto alguns tópicos que descrevo a seguir em que acredito serem importantes para a persona facilitador.

1. Autoconsciência

Capacidade de olhar para si mesmo com honestidade e isenção, sem julgamentos ou autocrítica; é a capacidade de se reconhecer por inteiro, de identificar todos os defeitos e qualidades, e todo o bem e todo o mal que nos compõem[2].

Como comentado também no primeiro post, sofremos muitas intercorrência durante nossos dias e além disso muitos momentos trabalhamos de forma divagante, sem estar consciente do que estamos fazendo mais ou menos como um piloto automático de um avião[3]. Nossa maior arma, o cérebro, possui uma área responsável por atividades rotineiras que fazemos sem mesmo percebermos que estamos fazendo, e posso dar um exemplo prático disso que ocorreu comigo. Até uns dias atrás estive presente no cliente algumas semanas, em uma de suas salas possuía uma tomada ao lado da porta para ligar e desligar as luzes em contrapartida na empresa que trabalho também existem tomadas similares no mesmo local, porém suas funções são de liberar o magnetismo para então abri-la, logo o que meu modo padrão[4] fazia quando eu estava no cliente? Sempre desligava a luz quando estava para sair da sala, ou seja, meu cérebro estava com seu piloto automático para essa atividade, e passei vários dias repetindo esse desligar/acender das luzes, talvez precisasse de meses para reprogramar meu cérebro para apenas abrir a porta.

Modo padrão: termo científico para o piloto automático

Quando comento sobre autoconsciência para um facilitador meu objetivo é promover uma fortificação do aspecto pessoal e principalmente emocional, esclarecer como ter o foco principalmente no presente momento, e tudo isto parte do conhecer como nossa cabeça funciona e a partir disso ser capaz de promover ou estimular o mesmo nas pessoas que iremos colaborar por meio de uma facilitação. Deixar claro que nossa cabeça cria um piloto automático para atividades menos importantes e libera espaço cognitivo para o foco em coisas mais importantes e inovadoras.

Resumindo com autoconsciência melhoramos nossa calma interior e emocional, foco e escuta ativa, então podemos partir para outro ponto que acredito ser importantíssimo na construção de um facilitador: comunicação.

2. Comunicação não-violenta

Sabemos que a comunicação é essencial em qualquer atividade que realizamos coletivamente e que ela trás benefícios maravilhosos no desenvolvimento de projetos, mas não necessariamente se comunicar é o que devemos nos preocupar apenas, e sim, se estamos levando essa troca de mensagem de modo agressivo, e aqui que quero chegar: comunicação não-violenta (CNV) método comunicativo desenvolvido pelo Dr. Marshall Rosenberg. No vídeo abaixo (versão dublada) o Dr. Marshall Rosenberg explica com mais detalhes como nasceu e o objetivo da CNV.

Versão legendada:

https://youtu.be/AbQTnHirOnw

Um facilitador precisa disparar um ou vários gatilhos durante uma facilitação que no fim de tudo busca expor necessidades que os indivíduos tem para com alguém ou com algo, além de inspirar as pessoas contra atitudes desrespeitosas, odientas, agressivas entre outros sentimentos negativos que rodeiam nossos pensamentos não é?

“Para além das ideias de certo e errado, existe um campo. Eu me encontrarei com você lá.” – Rumi

Entendo que com o conhecimento da CNV o facilitador poderá ser mais eficaz e utilizar de algo muito importante que é o não julgamento exatamente o campo da citação acima, abaixo por fim comento os componentes da CNV e exemplos que podemos utilizar.

Quatro Componentes da CNV

Expressar com honestidade e receber com Empatia

Observação – Sem julgamento e descritiva

Comentário julgadorComentário descritivo
Joaquin você chega sempre atrasado nas reuniões. Joaquin nas últimas três reuniões chegou atrasado. A equipe está sentindo falta de sua presença durante toda reunião.

No comentário julgador estamos usando “sempre“, uma afirmação generalizada e considerada exagero linguístico o que a CNV não aconselha, além de provocar uma reação defensiva de quem está recebendo a mensagem.

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Para o comentário descritivo mudamos a abordagem para o quantitativo além de expressar o fato de forma honesta e a necessidade que a equipe tem de tê-lo presente.

Sentimento – o que sentimos em relação ao que observamos?

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Sentimento é uma das mais importantes formas de expressão que a CNV busca, mesmo pondo em risco ser visto como fraco, essa estratégia tende a desarmar uma contra-reação hostil, que convenhamos para um facilitador é uma ótima arma.

Para a CNV podemos reagir de quatro formas a uma mensagem negativa – a algo como “você é um desfocado em reuniões”:

a) Culpar a nós mesmos. Assumindo a mensagem como pessoal

“Oh, me perdoe, eu deveria ser mais atento, que infeliz eu fui.”

Neste caso a pessoa está se condenando além de se punir, logo essa agressividade não é a melhor das saídas segundo a CNV

b) Culpar os outros. Reverter a culpa para o locutor da mensagem

“Você está sendo duro comigo, tenho realizado muitas entregas durante a semana.”

Neste caso a pessoa está recebendo a mensagem e se fechando a qualquer diálogo pacífico tão pouco está interessado em entender a dor que a pessoa senti ao lhe chamar de desfocado, lembrando sempre de expressar com honestidade e receber com empatia.

c) Escutar nossos próprios sentimentos e necessidades. Aqui já é exercitado uma maior consciência do nossos sentimentos conforme o fato

“Quando diz que sou desfocado me sinto constrangido comigo, pois não é minha intenção e ouvir isso me faz refletir.”

d) Escutar os sentimentos e necessidades dos outros. Aqui chegamos no ponto esperado que é o foco na necessidade da outra pessoa

“Quando diz que sou desfocado imagino que queira mais atenção minha nas reuniões, é isso?”

Neste caso aparentemente estou sendo fraco e condescendente entretanto retomo a abrir um diálogo sem contra-ataques ao pedir com maior clareza a expectativa do locutor da mensagem negativa.

Necessidades

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Quando expressamos nossas necessidades naturalmente aumenta a chance de sermos atendidos ao contrário de realizar julgamentos e avaliações, é a velha história do “Quer ser respeitado então respeite” ou “Não quer ser julgado então não julgue” quando realizamos um julgamento ou avaliação provocamos uma defesa e automaticamente um fechamento é um belo tiro no pé.

Então um ótimo exercício a se fazer seria é ao invés de pensar em quem está certo ou quem está errado em uma situação, podemos apenas pensar em quais necessidades os indivíduos buscam e quais as que queremos ver atendidas.

Aqui deixo uma lista de necessidades não é completa mas serve de base

Celebração (luto, festa), integridade (honestidade, sinceridade, escolha, autenticidade), conexão (mutualidade, consideração, integração, confiança, abrigo), pertencimento (inclusão, igualdade, contribuição, respeito, compreensão), aprendizagem, segurança, estabilidade e ordem.

O mais importante é buscar ser o mais claro com suas necessidades.

Pedidos

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Que fique claro que um pedido é diferente de uma exigência, quando fazemos uma exigência podemos ter a) uma pessoa que apenas aceita ou b) uma pessoa que se rebela, em ambos não irá existir uma reciprocidade de conexão.

Pedidos claros e específicos tendem a ser atendidos e a dica que fica é falar de modo que deixe claro o que você quer e não aquilo que não quer.

“Não faça mais um commit na master sem abrir um MR” é um não-pedido. Seria melhor pedir “Abra um MR para a master quando quiser commitar”.

Uma outra dica é sempre pedir uma confirmação se realmente o pedido ficou claro e se caso contrário refazer o pedido com toda tranquilidade.

Resumindo com o CNV somos capazes de melhorar ou evitar julgamentos precipitados, demonstrar humildade, flexibilidade, empatia e alinhar expectativas.

3. Servidor (não ser o centro)

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Não seja o gatinho da facilitação, diferente de um servidor de aplicação para os entendedores de desenvolvimento de software o facilitador não deve ser o centro (guru), em que perguntam e ele responde com uma certeza absoluta, as pessoas tem a capacidade de construir suas próprias soluções e nesse caso é sempre ideal estimular com perguntas para possuir maior participação das pessoas, ou seja, a construção não é do facilitador e sim do grupo ao menos em sua maioria.

O que você acha João? Teria uma sugestão Maria? Como desejam construir isso? Quais opções existem? Quando se desentenderam o que sentiram?

Outra forma de evitar a armadilha do guru é se manter o máximo em silêncio quando se observar que as pessoas estão buscando suas soluções, interromper este momento é provocar uma passividade das pessoas para com o facilitador.

4. Criatividade/Humor

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Para se ter um ambiente harmônio e menos arrastado durante uma reunião podemos buscar criatividade e humor, parece meio óbvio que sem esses pontos uma reunião irá tender a ser carregada de tédio e outros sentimentos negativos, mas para o facilitador ter a medida certa dessas duas coisas é difícil pois entra fatores diretamente vinculados a personalidade do facilitador alguns serão mais sérios, outros nem tanto e etc.

Quando cito criatividade para um facilitador meu objetivo é que o mesmo tenha um leque de opções para suas facilitações e existem várias dinâmicas a serem utilizadas, algumas podem ser vistas em https://www.funretrospectives.com/ e o mais importante que acredito é: permita-se estar aberto a criar suas próprias ou adequar as que existem para seu contexto.

Quanto ao humor acredito ser o melhor amigo da criatividade até por isso coloquei os dois no mesmo tópico, segundo o médico e homeopata Eduardo Lambert, autor de A Terapia do Riso.

Exercício – Libere a endorfina!

“Ele relaxa o corpo e a mente, fortalece as defesas do organismo, melhora a circulação e a pressão arterial e libera endorfina, hormônio que promove uma sensação de bem-estar geral”

Estudos demonstram que quem sorri é visto pelas outras pessoas como mais atrativo, confiável, relaxado e sincero. Quando vemos uma expressão facial, recriamos essa expressão no cérebro de modo a compreendê-la. É necessário haver um esforço consciente para não sorrir de volta a quem nos sorri.

Uma curiosidade boa em sorrir é que nosso cérebro não sabe a diferença entre sorrir espontaneamente ou de forma induzida em ambos produz a endorfina, e eu acreditava que pessoas sorrindo sozinhas eram malucas rs.

Exercício para rir

“Seguramos na barra imaginária do veículo e trememos, balançamos o corpo de um lado para o outro. A graça aparece naturalmente e contagia o grupo”

Resumindo se as pessoas sorriem estão mais abertas fisiologicamente e mentalmente potencializando a capacidade de ser mais criativo estas armas para um facilitador são de extrema importância quando se espera resultados diferenciados em uma facilitação.

5. Organização/Planejamento

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Como último tópico cito a organização e planejamento como quase tudo na vida é interessante estar preparado, com facilitação não é diferente, pois o facilitador precisa ter:

Tempo para se organizar (Objetivo e planejamento do horário e dia disponível)

Montar suas estratégias (dinâmicas)

Timebox (Encaixar tudo em um período de tempo predeterminado)

Colher feedback (Sempre pedir feedback das facilitações)

Logicamente que nem sempre isso será o cenário comum e o facilitador pode sim usar da experiência para facilitar em momentos mais pontuais sem tanto planejamento e preparação.

Referências

[1] https://pt.wikipedia.org/wiki/Facilitador

[2] https://processohoffman.com.br/blog/o-que-e-autoconsciencia-e-como-essa-habilidade-me-ajuda-ganhar-inteligencia-emocional/

[3] https://www.autoconscientepodcast.com.br/4-nossa-mente-divagante

[4] https://pt.wikipedia.org/wiki/Rede_de_modo_padr%C3%A3o

[5] https://amenteemaravilhosa.com.br/sistema-limbico/

[6] https://pt.wikipedia.org/wiki/Comunica%C3%A7%C3%A3o_n%C3%A3o_violenta

[7] https://papodehomem.com.br/comunicacao-nao-violenta-o-que-e-e-como-praticar/

[8] https://casa.abril.com.br/bem-estar/dar-risada-faz-bem-ao-corpo-e-a-alma/

[9] https://www.brasil247.com/geral/rir-e-o-melhor-remedio-o-sorriso-relaxa-o-corpo-e-a-mente

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